Trigo: Com queda do poder de compra do consumidor, há pouco espaço para reajuste de preços da farinha. Moinho ajusta contas para preservar margens.

B10 | Sábado, domingo e segunda-feira, 18, 19 e 20 de junho de 2022
VALOR Agronegócios

Fernanda Pressinott
De São Paulo


A cadeia produtiva do trigo não está deliberadamente seguindo a recomendação do presidente Jair Bolsonaro de não reajustar preços, mas está sendo obrigado a controlar o valor de comercialização da farinha diante de um consumidor com a renda cada vez mais restrita.

Segundo César Pierezan, administrador industrial do moinho da cooperativa gaúcha Cotriel, a indústria está modificando a maneira de fazer as contas para trabalhar com o preço médio dos estoques de trigo, em vez do valor da última negociação — e apertando as margens.
“No farelo de trigo, a margem é inexistente neste momento, enquanto a da farinha está cada dia menor”, diz. A Cotriel comercializa farinha principalmente para panificadoras e indústrias do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais. “Não sei o que não subiu. Folha de pagamento e energia, sem falar no diesel, tudo aumentou”, afirma Pierezan. A cooperativa tem trigo estocado a uma média de R$ 1,6 mil a tonelada, enquanto o cereal gaúcho é comercializado hoje por R$ 2,1 mil. “Nossa sorte é ter a cadeia fechada e sempre comprarmos escalonado”.

O analista Luiz Fernando Pacheco, da T&F Consultoria, completa: “Ao fazer a conta contrária ao que está sendo comercializado nas prateleiras de supermercado, vemos trigo ao custo de R$ 1,6 mil a R$ 1,7 mil, preços que não existem há meses. Isso quer dizer que só uma boa administração dos negócios vai permitir a sobrevivência das empresas”. Segundo Pacheco, entre fevereiro e abril os moinhos trabalharam com capacidade máxima de produção por causa da demanda aquecida, mas por parte de distribuidores atentos a uma possível alta dos preços do trigo com a entressafra e a guerra da Ucrânia. “Os compradores de farinha agora estão abastecidos e fora do mercado, enquanto os moinhos estão trabalhando com 60% ou 70% da capacidade. Alguns fecharam as portas em maio e terão que esperar a safra nova para voltar”.
A depender do moinho, o estoque dura de 45 a 60 dias, mas isso exige um bom capital de giro ou operações de hedge na bolsa de mercadorias, o que também é oneroso.

Para Pierezan e Pacheco, porém, a chegada da nova safra não trará refresco para as operações e para os preços ao consumidor. A previsão para a colheita brasileira é de 8,4 milhões de toneladas, a maior da história e 8,8% superior a de 2020/21. Porém, com os recordes dos preços do cereal na bolsa de Chicago e o dólar em alta ante o real, a tendência é que as exportações nacionais cresçam e que a Argentina — maior fornecedora de trigo ao Brasil —venda para um número maior de mercados. “A maior dificuldade é trabalhar com os números sobre trigo no país. A Conab estima estoques de passagem de 188,3 mil toneladas. Se isso estivesse corretor, 166 dos 200 moinhos do país passariam de julho para agosto com estoque zero, o que é impossível”, observa Pacheco.

Alan Silveira, superintendente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), diz que os estoques calculados pela autarquia levam em consideração dados do IBGE e estimativas de consumo e exportações.
“Não é um número colhido em campo como área e produção. E podemos revê-lo quando sair a pesquisa de estoques do IBGE”, afirma ele.

Irineu Pedrollo, sócio da I&MP Consult, que presta serviços para a J.Macedo, afirma que os lotes oferecidos caíram para entre 500 a 700 toneladas, ante 3 mil ou 5 mil durante a safra, mas os negócios estão mais travados pelo preço do que pelos volumes. No Paraná, diz, a tonelada está entre R$ 2,3 mil e 2,35 mil. “Com a colheita no Hemisfério Norte começando, há pressão de oferta e os preços tendem a cair. Mas não será para os patamares de 2021, porque a
guerra na Ucrânia continua e acirrar a disputa internacional”, comenta.

A aposta é que a tonelada do cereal fique em torno de R$ 1,9 mil, enquanto em dezembro passado eram R$ 1,6 mil no mercado gaúcho e de R$ 1,4 mil e R$ 1,5 mil no Paraná. Sobre a safra, há atraso em pontos do Rio Grande do Sul, cuja janela vai até 30 de julho, mas nas demais regiões do país a expectativa é positiva.

Commodities: Milho e Soja passam por correção técnica e sobem em Chicago. Trigo encerrou o dia em queda.

Depois de caírem 5% na sessão de ontem, os contratos do milho para setembro, os mais negociados na Bolsa de Chicago, avançaram 2,4% (16 centavos de dólar) nesta sexta-feira, a US$ 6,8275 por bushel.

Diferente do milho e da soja, o trigo encerrou a semana com queda em Chicago. Os contratos para setembro, os de segunda posição e também os de maior liquidez, fecharam o dia em queda de 1,34% (12,75 centavos de dólar), a US$ 9,3650 por bushel.

Para Luiz Carlos Pacheco, Analista Senior da TF Consultoria Agroeconômica, os preços caíram com os fundos de investimento realizando lucros. Segundo ele, o receio de uma recessão global seguirá como fator de pressão ao trigo em Chicago.

“Alemanha vive um cenário de ‘estagflação’ e a China, que tinha crescimento de até 9% ao ano, pode ver seu PIB encolher para 4,5%, diminuindo a importação de matérias-primas. Tudo isso aliado a alta dos juros comprime a demanda a nível global, e todas as commodities caem”, lembrou Pacheco.

A guerra na Ucrânia é um fator de suporte para as cotações, e o analista diz que o conflito deve manter o preço do trigo em Chicago na casa dos US$ 10 por bushel. “Não existe uma perspectiva para o fim da guerra no curto prazo. Mesmo que um corredor de exportação pelo Mar Negro fosse liberado, levaria seis meses para retirar as minas instaladas na região pela Ucrânia. Apesar disso, a notícia da abertura desse corredor de exportação causaria um efeito de baixa nos preços em Chicago”, disse.

Por José Florentino e Paulo Santos, Valor — São Paulo

24/06/2022 16h40 Atualizado há 22 horas

https://valor.globo.com/agronegocios/noticia/2022/06/24/commodities-milho-e-soja-passam-por-correcao-tecnica-e-sobem-em-chicago.ghtml